Sobre o diploma e a formação do jornalista
Dá para ensinar jornalismo em curso específico? Sim, há vantagens para procurar as escolas, mas há também contrapartidas
Por Luís Eblak
eblak@uol.com.br
Produzido entre julho e agosto; publicado em 17/ago/2009
A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de derrubar a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista não muda em quase nada a realidade dos milhares de aspirantes à profissão. A única alteração é que agora o futuro jornalista tem liberdade de escolha: pode fazer o curso de jornalismo ou não para se tornar um profissional.
Uma nova questão se coloca para os ex-alunos e atuais estudantes de jornalismo: vale a pena fazer uma graduação específica em quatro anos?
Este jornalista – diplomado nos cursos de jornalismo e história – sempre foi contrário à obrigatoriedade do diploma, mas a favor do ensino específico. Por isso, responde sim à pergunta acima. Tento me explicar neste texto.
Basicamente, para ser jornalista, é preciso reunir algumas características. Eu selecionaria duas bem genéricas, preferencialmente nesta ordem: boa formação geral (história, política, direito, biologia, física, etc.) e conhecimentos específicos em jornalismo. A primeira característica se adquire ao longo da vida, desde as primeiras leituras, e pode se fortalecer em quase todos os cursos de graduação [nem é preciso dizer que a curiosidade seja um elemento vital neste campo, com ou sem ensino superior]. Nela estão incluídas outras tantas subcaracterísticas, como a lembrada pelo jornalista Caio Túlio Costa, em artigo recente (http://caiotulio.com/sobre-o-diploma-de-jornalismo/): “sólida formação em filosofia moral”.
Já a segunda pode ser conseguida nas escolas de jornalismo, durante os quatro anos do curso, ou nas redações, em menos tempo, “na prática”. Nesta parte, cabe uma série de “subcaracterísticas”, algumas elencadas pelo blogueiro Mauricio Stycer: “ter o hábito de ler jornais e revistas, gosto pela informação, espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive” (http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/06/18/contra-a-obrigatoriedade-do-diploma-a-favor-de-regulamentacao/). Eu acrescentaria a agilidade em realizar as técnicas jornalísticas requisitadas – apuração, redação de texto, edição, etc. –, algo fundamental em qualquer redação.
Esse argumento de que os conhecimentos específicos podem ser aprendidos numa redação, na prática, em pouco tempo – semanas ou meses – é muito repetido por jornalistas do mercado. Segundo eles, por isso, não haveria a necessidade da existência das faculdades de jornalismo (leia mais adiante enquete que realizei a este respeito).
[Disse que os conhecimentos gerais deveriam vir primeiro que os específicos, mas devo lembrar que o inverso é possível. Conheço muitos jornalistas – inclusive alguns deles sem diploma de curso superior – que só conseguiram essa formação geral depois do ingresso nas redações: ou por serem autodidatas (ajudados com certeza pela tal curiosidade já mencionada), ou por buscarem cursos de especialização ou mesmo graduação. Por esse motivo, sou contra a obrigatoriedade do diploma: uma escola pode ajudar a formar um jornalista, mas isso não significa que todos os jornalistas devam sair dessas faculdades.]
Vantagens de um curso específico
Por que então adquirir conhecimentos específicos numa escola? Talvez a principal vantagem em se aprender nas faculdades é que lá o aspirante a jornalista tem uma estrutura de aprendizado à sua disposição (professores com experiência no mercado, laboratórios com computadores, TV e rádio) e, assim, pode errar muito mais do que nas redações – só não pode errar tanto a ponto de ser reprovado. Parto do pressuposto que o aprendizado da prática jornalística se dá apenas nesse processo: produção, erros, orientação e acertos. Ou seja, fazer e refazer uma apuração jornalística, escrever e reescrever um texto informativo, editar e reeditar um material para publicação ou veiculação, sempre com orientação editorial de professores com experiência profissional e habilidade didática. O foco, nas faculdades, é o ensino/aprendizagem e, por isso, docentes devem ter disposição e paciência para esse complexo processo, devem estar preparados para explicar e reexplicar para os estudantes os critérios editoriais empregados nessas atividades práticas.
Nas redações, por outro lado, há espaço muito limitado para esse aprendizado. Jornalistas que atuaram na profissão nos anos 60, 70 e 80 costumam dizer que naquela época os editores geralmente “formavam” esses jovens jornalistas “na prática” e que, por isso, estes não precisavam de escolas. Os focas podiam começar num jornal – ou qualquer outro veículo de comunicação – como rádio-escuta, depois passavam para os plantões policiais e, aos poucos, “viravam” repórteres, sempre monitorados por seus chefes. O que se relata daqueles tempos é que havia muito mais disposição para este “ensino na prática”… Hoje, contudo, as redações estão muito enxutas e, por isso, falta tempo para os editores, atarefados com outras funções que fogem inclusive do jornalismo propriamente dito – muitos acumulam mais atividades burocráticas e administrativo-financeiras. Numa entrevista dada a mim durante a feira do livro de Ribeirão, no dia 24/jun, o experiente jornalista Laurentino Gomes – ex-“Veja” e “Estadão” – me disse o seguinte:
As redações estão muito enxutas, as empresas cortaram custos, as pessoas estão trabalhando loucamente dentro das redações. Não tem mais editores com paciência, com tempo para ensinar os mais novos.
Mesmo na década de 90, quando eu cheguei ao mercado de trabalho com as redações mais cheias do que hoje, esse aprendizado já era bastante limitado – variava bastante em relação ao local que você trabalhava (veículo de comunicação e editoria) e aos seus chefes. Por isso, a tolerância por erros é já há alguns anos limitadíssima. O acúmulo deles significa, quase sempre nos grandes veículos, a demissão.
Por isso, acredito que para grande parte dos candidatos a jornalista as escolas de jornalismo sejam melhor opção de aprendizado nesse campo da prática profissional. Sem as faculdades, pessoas como eu e meu colega Fernando Molica, dificilmente chegariam a uma redação, como ele mesmo explicou seu ponto de vista (http://www.fernandomolica.com.br/blog/2009/06/o-tal-do-diploma.php):
Não sei se eu, suburbano, filho de um contador e de uma dona de casa, teria conseguido chegar a uma redação de jornal se não tivesse cursado uma faculdade específica. A exigência legal – não apenas ela, claro – ajudou a profissionalizar o exercício do jornalismo, a democratizar suas portas de entrada. A formação que tive na universidade não chegou perto do ideal, mas foi a melhor que poderia ter tido, era a única – formal ou informal – que estava ao meu alcance. Não era parente ou amigo de jornalistas, não tinha qualquer pistolão. O curso universitário serviu como uma credencial para que eu pudesse ser recebido na primeira redação em que entrei para pedir um estágio. Isso ocorreu comigo e com muitos e muitos colegas.
[no meu caso, deve-se apenas trocar a profissão do pai: o meu é um garçom que virou dono de restaurante e eu fui o segundo membro da família a fazer curso de ensino superior. Minha mãe, também dona-de-casa, e meu pai não chegaram sequer ao ensino médio... Além de eu não ter nenhum pistolão nas redações, como meu colega Molica, o primeiro jornalista que conheci na vida foi meu professor da faculdade e hoje amigo Luiz Carlos Ramos.]
Outra vantagem das faculdades, na minha opinião, é que elas, em tese, podem ensinar não apenas a parte prática da profissão (apuração, texto, edição, etc.), mas também um conteúdo voltado para a reflexão sobre o jornalismo [Aqui, uma ressalva: embora eu faça esta divisão entre teoria e prática, entendo que esses dois pólos estejam intrinsecamente ligados e não separados. Não quero, porém, entrar nesta discussão sobre a inexistente dicotomia entre teoria e prática]. Entrariam nesta lista de reflexão sobre o jornalismo a pesquisa acadêmica e o estudo de disciplinas como teorias do jornalismo, teoria da comunicação, ética na profissão [embora eu pessoalmente tenda a concordar com a visão de Cláudio Abramo, para quem a ética do jornalista é a mesma da do marceneiro] e sociologia da comunicação. Pelos mesmos motivos descritos anteriormente, nas redações não há tempo para reflexão entre todos os profissionais. Pensam no jornalismo e na edição apenas aqueles que ocupam os cargos de alto escalão dos veículos de comunicação ou repórteres e outros profissionais de prestígio. A base da mão-de-obra, quando está no mercado de trabalho, jamais terá tempo disponível para realizar esta reflexão e auto-análise da profissão que podem ser trabalhadas nos cursos de graduação. É o que pode ser feito numa faculdade específica.
Qualidade?
Apesar de achar isso tudo, não quero dizer que os cursos de jornalismo sejam bons. Considero-os ruins – em comparação com a qualidade das demais graduações existentes no Brasil. As escolas de jornalismo precisam ganhar credibilidade e utilidade no mercado e na sociedade de modo geral. Fato hoje: elas não têm isso e não estão conseguindo formar futuros jornalistas a contento. Não conseguem, não conseguiam na época em que me formei (1990-93) nem quando começaram a existir no Brasil, no final da década de 1940. O problema afeta todas as faculdades – umas mais, outras menos – e, penso eu, é mais complexo do que se imagina. Passa pela formação deficitária do estudante nos ensinos básico e médio, pela responsabilidade das instituições de graduação, pelas dificuldades dos professores em sala de aula. As escolas precisam melhorar na formação do jornalista – principalmente num quesito que considero fundamental para a profissão: a apuração jornalística [pouco ou quase nada se ensina de investigação nas faculdades. Ainda mais porque, no mundo atual, muita gente acha que todas as respostas estão no Google. Não. Apuração é muito mais do que realizar uma pesquisa na internet – este passo é, na verdade, apenas o primeiro de vários outros. Boas iniciativas estão à disposição, mas fora das faculdades – há entidades que se esforçam em propagar o ensino de técnicas de investigação, como a Abraji (http://www.abraji.org.br), e até blogs (http://zerotoledo.wordpress.com). Estes, no entanto, são voltados para jornalistas profissionais ou estudantes.]
Uma enquete que fiz entre junho e julho com 20 jornalistas que atuam no mercado revela esta falta de credibilidade dos cursos. Desse total, 16 (80%) afirmaram não ter aproveitado absolutamente nada de seus cursos de jornalismo [sobre a exigência do diploma, eles confirmaram o que sempre ouvi de meus colegas enquanto estive nas redações: 17 deles (85%) são contra a obrigatoriedade]. “O curso não me ajudou em absolutamente nada. Devo minha formação à história”, me contou Sylvia Colombo, editora da Ilustrada, da “Folha de S.Paulo” e minha colega das graduações de jornalismo (PUC/SP) e história (USP). “Me deu muito pouco. Só um professor [Marques Leonam], que mudou minha vida profissional”, relatou a repórter especial da revista “Época” Eliane Brum, que estudou na PUC/RS. “Foi muito ruim”, constatou Laurentino Gomes, ex-aluno da UFPR. Como eles, quase todos os jornalistas criticaram os cursos que fizeram. Posso concluir, com base no que esses jornalistas me disseram sobre a formação e sobre o diploma, que eles têm a seguinte visão: 1) pode-se aprender técnicas jornalísticas na prática e em pouco tempo – em “algumas semanas ou meses” – nas redações; 2) os cursos de jornalismo não agradam quem atua na profissão.
Dito de forma mais objetiva: as escolas brasileiras de jornalismo são ruins e precisam melhorar. Fato [aqui, um parêntese: só é preciso ter cuidado para não tornar as faculdades de jornalismo piores do que elas já são. Embora concorde com a deficiência dos cursos, vejo exagero em afirmações do tipo “o curso não serviu para nada”, “foi perda de tempo total”. Os cursos de jornalismo em que dou aulas podem ser chatos – teorias do jornalismo e da comunicação, semiótica, etc. – e ineficientes – quando têm professores dando disciplinas para as quais não são capacitados... –, mas daí a afirmar que são um “zero à esquerda”, há uma distância grande. Confesso, por exemplo, ficar contrariado quando vejo um aluno (que não lê nenhum dos textos que indico para minhas aulas teóricas nem faz quase nenhuma das apurações que solicito, nas aulas práticas) criticar o curso sem aproveitá-lo].
Em parte essa deficiência ocorre porque o debate sobre a exigência do diploma ofuscou uma discussão maior, que é a qualidade do ensino. Assim, tendo a concordar com o que me explicou Laurentino Gomes, na já citada entrevista de junho passado: “O importante não é a obrigatoriedade ou não do diploma, mas a qualidade dos cursos de comunicação.” Academia, sindicatos de jornalistas e associações de professores, embora também tenham tentado buscar essa qualidade, se esforçaram demasiadamente, nos últimos 20 anos pelo menos, em defender a exigência do diploma, inexistente na maior parte do mundo ocidental e em países que mais nos influenciam no modo de fazer jornalismo – EUA, Inglaterra e França, por exemplo. Isso tornou a luta pela qualidade do ensino minimizada e pouco efetiva até hoje.
Meu colega Marcelo Soares (http://dicasdeumfucador.blogspot.com/2009/06/o-retrato-da-nossa-miseria.html) entrevistou o norte-americano Philip Meyer, um dos maiores especialistas no estudo do jornalismo, muito antes da decisão do STF. Autor do livro “Os Jornais Podem Desaparecer?” (lançado por aqui em 2007), Meyer afirmou a ele:
Essa lei [de obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercício da profissão no Brasil] dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão.
Não diplomados
Caso opte em fazer outro curso, o aspirante a jornalista também pode se tornar um bom jornalista. Será, no entanto, mais difícil para quem tiver dificuldades em aprender sozinho. Devo dizer que eu, como editor que fui, contratei jornalistas não diplomados e continuaria a contratá-los caso voltasse a essa função. Defendo o curso de jornalismo, mas não sou radical a ponto de só aceitar diplomados na área. Conheci vários jornalistas competentes que fizeram outros cursos e não precisaram das escolas de jornalismo para serem bons profissionais [este é um dos motivos que apresento contra a obrigatoriedade do diploma: pode-se aprender técnicas jornalísticas em pouco tempo e na prática, sem a necessidade de um curso de quatro anos]. Entendo que um economista, por exemplo, que realmente tenha aproveitado seu curso de economia possa se tornar um jornalista em pouco tempo. O mesmo vale para um engenheiro bem formado, um físico ou um biólogo.
Uma opção para os candidatos a jornalista são os cursos de trainees dados pelas empresas jornalísticas, que vão rapidamente dar a ele o conhecimento específico técnico necessário. Vai faltar a parte acadêmica específica mencionada anteriormente (a reflexão sobre o jornalismo), mas se ele realmente aproveitou seu curso de graduação em outra área terá maturidade para aprender na prática a refletir sobre sua nova profissão.
Penso que daqui pra frente irão surgir muitos cursos dados por faculdades que prometem oferecer o aprendizado das técnicas jornalísticas para leigos. Algumas instituições já anunciaram esses cursos. Não conheço, no entanto, nenhum no Brasil que valha a pena no momento – exceto aqueles voltados para jornalistas, como os da Abraji. Mas esta decisão do STF deve impulsionar a abertura desses cursos, o que pode ser uma boa notícia para o mercado [Muita gente já está prevendo, inclusive, a melhora dos cursos de graduação de jornalismo em si, como diz recente artigo da “Folha de S.Paulo” (“Jornalista sem diploma não tem futuro”, 21/jun/2009)]. Por enquanto, os estudantes ou graduados em outras áreas que queiram se tornar jornalistas têm apenas duas opções para buscarem esse conhecimento específico: aprenderem sozinhos ou fazerem esses cursos de trainees que os aceitem.
Há, no entanto, dois problemas para os cursos de trainee. Um, específico para o programa da “Folha” – feito quatro vezes por ano –, é que ele é bastante concorrido. São cerca de 2.500 inscritos por turma que disputam apenas 12 vagas (o que dá um índice de 208 candidatos/vaga, bem mais alto do que os vestibulares mais concorridos do país). O outro problema, para cursos de trainees em geral – incluídos aqui, por exemplo, os do jornal “O Estado de S. Paulo” e da TV Globo –, é que por enquanto são voltados apenas a estudantes de jornalismo. O do “Estadão”, por exemplo, só está aceitando inscrições de egressos ou alunos de escolas de jornalismo.
Diploma perdido?
Quem fez o curso de jornalismo perdeu tempo e (como no meu caso) dinheiro? O diploma de jornalismo passou a valer “menos” ou “nada” após a decisão do STF? Para quem estudou quatro anos numa faculdade, buscou – realmente! – e conseguiu conhecimento, a resposta é não para as duas perguntas. O diploma não perdeu a validade, só não tem mais o peso de antes. [Da mesma forma, deve-se dizer que quem nunca aproveitou – ou não aproveita – nada dessas faculdades até junho passado – seja por falha institucional ou pessoal – também não pode reclamar agora, pois seu curso não “valia mais” antes devido à lei da obrigatoriedade. A dizer: o sujeito que fez quatro anos de jornalismo ou faz ainda o curso e nada aprendeu não tinha o diploma “valorizado” antes da determinação do STF. Tinha apenas um papel. Um colega meu, Evandro Spinelli, repórter da “Folha de S.Paulo”, diz que, neste caso, o sujeito “comprou o diploma em prestações divididas em quatro anos. Ele explica: “Quem acha que gastou sei-lá-quanto para pagar uma faculdade e que agora o diploma não serve para nada perdeu dinheiro mesmo.” E mais: “Quem tem diploma e tem medo do cara que não tem, melhor ficar fora do jornalismo mesmo”.]
Os diplomas de publicidade e propaganda e de administração de empresas não são obrigatórios. Nem por isso eles valem “menos” ou “nada”. Cursos como os de administração da FGV (Fundação Getúlio Vargas) conseguiram ao longo dos anos uma excelência reconhecida pelo mercado. Seus alunos conseguem vagas em boas empresas não por causa do “diploma” em si, mas pelo curso que fizeram na FGV – as empresas, por sinal, não têm a obrigação de contratar um executivo “diplomado em administração”, mas em qualquer outra área ou até mesmo sem diploma.
Os cursos de jornalismo precisam buscar essa excelência. A decisão do STF pode ser uma boa oportunidade.
Concorrência
Vai haver mais concorrência para os milhares de aspirantes à profissão no mercado de trabalho? Eu tendo a achar que não muito mais do que já tem.
As grandes empresas jornalísticas – não apenas a “Folha de S.Paulo”, histórica defensora da não-obrigatoriedade –, antes mesmo do relatório apresentado pelo ministro Gilmar Mendes, já empregavam profissionais sem diploma de jornalismo nas redações – embora a grande maioria delas sempre tenha preferido diplomados. Em 15 anos de profissão, conheci vários.
Com a decisão do STF, pode mudar nada ou muito pouco. Explico: em tese poderia aumentar a concorrência nas redações porque mais gente de outras áreas (advogados, médicos, químicos, físicos, etc.) vai querer entrar no jornalismo, mas aí ocorre uma seleção natural (dos dois lados). Exemplo: um advogado (para ficar no primeiro exemplo citado) bem qualificado pode querer ser um dia repórter de um grande veículo de comunicação, mas quando ele descobrir os salários e a carga horária de trabalho, com certeza irá desistir. Agora, um advogado medíocre pode, sim, querer ser repórter do mesmo grande veículo de comunicação apesar dos rendimentos limitados, mas nesse caso, tenho certeza, será a empresa que dirá não. Duvido que um grande jornal, revista ou emissora irá demitir um competente repórter em início de carreira para ter um advogado fanfarrão em seus quadros.
O problema maior, admito, será nos pequenos veículos de comunicação. Estes, em grande número, irão contratar profissionais não qualificados – seja para pagar salários menores, seja por interesses particulares. Mas a situação não irá piorar, pois já é bastante ruim. A qualidade jornalística desses veículos já deixa a desejar. Difícil ser pior do que já é. Como me explicou Laurentino: “tem outros desafios mais complicados [para a profissão] do que a obrigatoriedade ou não do diploma”. Este é mais um deles.